1.
A luz escorria sobre o mundo como se se tratasse de uma praga e o vento sussurava ao seu ouvido que nada iria ser o mesmo, mas ainda assim ele não quis acreditar e deixou que a luz o afogasse na sua quente imensidão. Ao olhar para o lado viu-a deitada mais serena e frágil que nunca, se uma casa a pudesse acolher então o seu coração também. Tentou tocar-lhe mas não achou em si a coragem suficiente por isso decidiu que apenas se ia deitar ao seu lado, e tentando não macular a pele fria de alabastro, cobrindo-a com o calor da sua respiração aterrou a mão no seu peito e sentiu nada. Mas podia jurar que na noite anterior durante a tempestade ouvira o interlúdio da música que se escondia entre os lábios dela. A esperança morreu.
2.
A antiga senhora aplicava o ikebana em tudo o que fazia. Um dia disseram-lhe: Quero-te atar os orgãos todos, unificar a tua desintegração crónica, completar-te. Ela respondeu: Deixa os pedaços do meu corpo caírem por si, é muito mais belo um fim natural. Ele partiu além-mar e nunca mais voltou. Ela sabia que se a doença curasse o pôr do sol, a morte na sua própria sombra seria infinita. Mas uma doença não cura a outra, e cada nascimento torna cada morte mais curta. Descobriu isto através do florescer matinal de arte polida que criava todos dias onde aos poucos viu que o céu, a terra e a humanidade que a criaram, estavam comprimidos nos seus arranjos. Dizem que desapareceu dentro de um arranjo, e que foi flor para sempre. E que um dia ele a cheirou.
3.
As folhas jaziam na sua mão como pedaços de um cancro que assolavam a sua existência, os seus olhos estáticamente fixos num ponto do céu não viam o azul que abençoava a rua. E sem notar o céu moveu-se para o lado, a convulsão acordou-o numa outra rua vazia de ventos, um sítio onde as folhas ganharam vida e despejaram o seu contudo para dentro de si. As letras entravam uma após a outra no seu corpo deixando-o exausto. Lentamente apercebeu-se do significado da possessão e compreendeu o porquê das palavras tão cruas nos pergaminhos. Rasgou as folhas vazias, olhou para o céu e com olhos de fogo ardeu a sua cólera. Das cinzas renasceu um pequeno rio de palavras que anunciava ao mundo a sua vinda. A esperança renascera.
4.
Ele pensara que era um extintor cheio de fogo nas artérias mas o inverno rigoroso de chamas fúnebres lembrou-o do frio que nunca conseguiu exprimir. Baixou os estores, deitou-se nos lençois agora escuros, mais frios. Porque as vértebras eram agora fios de seda. Porque incendiaram-se as unhas quando se cravaram em peles forasteiras. No escuro, não se vê as formas físicas do que nos rodeia e, consequentemente, não vemos nada senão o nosso interior. A finalidade de ficar numa casa sozinho é a compreensão da alma e, no seu final, da vida. Até um dia baixarmos os estores da nossa alma e nos despedirmos de nós próprios.
A luz escorria sobre o mundo como se se tratasse de uma praga e o vento sussurava ao seu ouvido que nada iria ser o mesmo, mas ainda assim ele não quis acreditar e deixou que a luz o afogasse na sua quente imensidão. Ao olhar para o lado viu-a deitada mais serena e frágil que nunca, se uma casa a pudesse acolher então o seu coração também. Tentou tocar-lhe mas não achou em si a coragem suficiente por isso decidiu que apenas se ia deitar ao seu lado, e tentando não macular a pele fria de alabastro, cobrindo-a com o calor da sua respiração aterrou a mão no seu peito e sentiu nada. Mas podia jurar que na noite anterior durante a tempestade ouvira o interlúdio da música que se escondia entre os lábios dela. A esperança morreu.
2.
A antiga senhora aplicava o ikebana em tudo o que fazia. Um dia disseram-lhe: Quero-te atar os orgãos todos, unificar a tua desintegração crónica, completar-te. Ela respondeu: Deixa os pedaços do meu corpo caírem por si, é muito mais belo um fim natural. Ele partiu além-mar e nunca mais voltou. Ela sabia que se a doença curasse o pôr do sol, a morte na sua própria sombra seria infinita. Mas uma doença não cura a outra, e cada nascimento torna cada morte mais curta. Descobriu isto através do florescer matinal de arte polida que criava todos dias onde aos poucos viu que o céu, a terra e a humanidade que a criaram, estavam comprimidos nos seus arranjos. Dizem que desapareceu dentro de um arranjo, e que foi flor para sempre. E que um dia ele a cheirou.
3.
As folhas jaziam na sua mão como pedaços de um cancro que assolavam a sua existência, os seus olhos estáticamente fixos num ponto do céu não viam o azul que abençoava a rua. E sem notar o céu moveu-se para o lado, a convulsão acordou-o numa outra rua vazia de ventos, um sítio onde as folhas ganharam vida e despejaram o seu contudo para dentro de si. As letras entravam uma após a outra no seu corpo deixando-o exausto. Lentamente apercebeu-se do significado da possessão e compreendeu o porquê das palavras tão cruas nos pergaminhos. Rasgou as folhas vazias, olhou para o céu e com olhos de fogo ardeu a sua cólera. Das cinzas renasceu um pequeno rio de palavras que anunciava ao mundo a sua vinda. A esperança renascera.
4.
Ele pensara que era um extintor cheio de fogo nas artérias mas o inverno rigoroso de chamas fúnebres lembrou-o do frio que nunca conseguiu exprimir. Baixou os estores, deitou-se nos lençois agora escuros, mais frios. Porque as vértebras eram agora fios de seda. Porque incendiaram-se as unhas quando se cravaram em peles forasteiras. No escuro, não se vê as formas físicas do que nos rodeia e, consequentemente, não vemos nada senão o nosso interior. A finalidade de ficar numa casa sozinho é a compreensão da alma e, no seu final, da vida. Até um dia baixarmos os estores da nossa alma e nos despedirmos de nós próprios.
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