Os teus olhos são como uma casca transparente de um ovo onde te vejo enrodilhada, tal embrião em placenta purificada. Esperas numa sala vazia cujas paredes ecoam a tua música,e dentro dos biombos que te rodeiam, cresce uma sugestão de passos de dança aos tombos. A vertigem agora serena quedas infinitas que exorcitam, e pouco sei sobre onde cair, pouco saberei sobre tudo o que vir mas perdoarás-me talvez por já não saber a idade desta adrenalina.Um pouco mais vazio. Este espaço, este ideal. Um pouco menos colorido. Deixa a minha cabeça rolar no teu colo como apenas mais uma, sentindo o calor a escorregar de mim, mas não sintas... de todo. (A distância é simplesmente avassaladora), será possivel combate-la? Será necessário? Põe a tua mão no meu peito e sente nada. Põe a tua mão na minha campa e chora por tudo o que não foste, mas mais ainda, por tudo o que não quiseste que eu fosse. Será possivel combater-te sem me usar? Será possível reconhecer as partes do corpo deixadas pela colisão nos destroços do carro? É claro que podes observar os paramédicos a recolher o que resta de mim, sentada na tua cadeira de martini na mão e pernas cruzadas, eu não me importo. Mas chega um dia em que o santuário atríbuido aos nossos dedos arde nas chamas do sentimento. Um rumor de estíolos na tua pele absorve-me para um lago que ainda não nomeei. Que amor trazes tatuado no fundo das tuas costas? Sente a realidade a desaparecer, sente-te a esvair em desculpas e palavras sem sentido de orientação que atingem tudo e todos. É isto que me espera? Corredores desertos, cores diferentes, caras desfiguradas, ou serei apenas eu que estou mal na fotografia? Porque o coração nunca pára mesmo depois de cair aos meus pés e a vida respira vida em si mesma num ciclo que trás mais vida aos seres que a rodeiam. Fecunda a ideia em ti mesma: "as coisas não acabam, apenas têm inicios diferentes". Este será um inicio diferente para mim também. Tem uma boa viagem.
segunda-feira, 2 de outubro de 2006
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