Afunda-te no oceano da tua sombra e ganha uma nova morte, um descanço temporário onde as janelas estão eternamente abertas deixando entrar pesadelos de outros dias. Deixa que os lençóis te envolvam no seu calor aconchegante e atordoador, a febre passará e as visões de mantos estrelares esculpidos com caras de desprezo acabarão. Deixa que a overdose de oxigénio se manifeste na realidade e que o ópio te mostre o caminho de volta à tua alma. Caminhaste demais sobre estradas de vidro estilhaçado, aquele caminho que todos percorremos para encontrar no fim apenas uma catedral em ruínas onde os ventos de tempos antigos sopram a brisa da desilusão na tua face. Agora dorme nas cavernas que encontraste dentro de ti, forma um casulo de esperanças e ramos secos, até que o sol branco e luzídio toque de novo nas paredes da caverna e na seda branda do casulo onde desenhas mapas do outros mundos. Por momentos sentes-te livre. Nada tens a temer da tua nova luz que reflecte a esperança encontrada. Talvez a desilusão seja apenas temporária, mas, se assim for, a luz também acabará por se tornar escuridão e depois... depois terás que recorrer ao tacto. Um sentido que tu sempre puseste de lado. Nunca tiveste tacto para as palavras e os seus momentos, nunca tiveste tacto para as pessoas e os seus sentimentos. As folhas que recolheste ao longo da vida continuam em branco... em branco como se após o deflúvio do teu corpo estivesse na alma apenas um interstício entre dois vazios exímios. Parte. Esta terra de árvores de cristal e prédios de flanela nunca foi o teu lar, foi apenas uma estadia passageira. Bate as asas cuja sombra te cega das luas de prata que brilham apenas neste lado do planeta. Parte sem saber que entre as mãos enterradas no chão alcatroado que seguram as lanternas que nos iluminam jaz o meu coração abandonado.
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